Eu posso ser o Seu Demônio.

A Bailarina me disse que a Briza disse a ela: "Escrever é desenhar o que se sente..." A Briza estava certa!

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Monday, February 12, 2007

O caso do vendedor de feijão.

Já faz dois anos desde que a favela do Iraque ganhou o título de vila. A vila do Iraque era diferente das outras vilas por onde Emanuel passava. Ele observava as casas bem pintadas, com jardins floridos e cercadas por muros baixos, que se encontravam na Vila Tamandaré ou na Vila Cardeal e Silva e se perguntava por que na Vila do Iraque não era daquele jeito.
Ele tentava se enganar ao chamar aquele lugar de vila. Na verdade ele sabia que aquilo não passava de um título que um político qualquer deu a comunidade só para ganhar votos. Emanuel era pobre, mas não era burro. Com efeito, não havia vila alguma ali. Barracos, bocas de fumo e pessoas miseráveis, como Emanuel, pintavam a realidade daquela favela.
O barraco onde viviam Emanuel, sua esposa e os dois filhos do casal, Pedrinho, de nove anos e Cecília, com apenas seis meses, era muito pequeno e escuro. Coberto de lona preta, não tinha janelas, só uma portinha estreita que se fechava apenas na hora de dormir. Todos dormiam juntos em finos colchões estendidos sobre o cão de terra batida.
Emanuel não tinha muitas posses, além da TV de quatorze polegadas e um fogãozinho de duas bocas, só lhe restava à velha bicicleta barra circular que lhe servia de transporte para onde quer que ele fosse. Sem emprego, coincidentemente desde quando a favela virou vila, ele acordava sempre às quatro e meia da manhã e seguia, às vezes com Pedrinho, até a Ceasa para comprar feijão verde para vender nos sinais de trânsito.
Antes do feijão verde, Emanuel vendia abacaxi, mas logo percebeu que alguns abacaxis machucavam no caminho e os que sobravam se estragavam com rapidez. Se ele não vendesse todos no mesmo dia, não era possível oferece-los no dia seguinte e, além do mais, ninguém compra abacaxi nos sinais. Os feijões duram mais e quando sobram, vão para a mesa ou podem ser vendidos durante vários dias, sem problemas.
Apesar da brilhante idéia de trocar abacaxi por feijão, Emanuel ainda não tinha sentido o prazer de comprovar a sua teoria. Há dois meses que ele pedalava, da Ceasa até o bairro do Espinheiro com um caixote cheio de feijão verde no bagageiro, parava em um cruzamento na Avenida Rosa e Silva e esperava o lucro chegar.
Gente fina come feijão, mas não o suficiente, na modesta opinião de Emanuel. Ele até mudou de ponto, mas vendeu menos ainda. Voltou para Rosa e silva. Lá pelo menos dava pra tirar o gasto. As sobras alimentavam a família, na falta de coisa melhor.
Às cinco e meia da tarde, Emanuel fechava a banca, era como ele costumava dizer, amarrava o caixote de volta no bagageiro e pedalava até a Vila do Iraque, onde por pior que fosse, encontrava o carinho da esposa e os afagos de Pedrinho e Cecília.
Mais um dia terminava e Emanuel andava preocupado com o futuro dos seus. Pedrinho já deveria estar estudando e Cecília precisava de boa comida para crescer saudável. Pensava ele em visitar algumas oficinas mecânicas, para ver se arranjava algum trabalho que lhe oferecesse um pouco mais de dinheiro e dignidade, mas ele sabia das dificuldades. Parou de estudar na sétima série e os seus quarenta e dois anos já pesavam. Emanuel não era mais um garoto e apesar de ser um ótimo mecânico, não carregava consigo muitas esperanças. Então seguiu da Rosa e Silva até em casa, pensando em um modo de sair do buraco.
Ao chegar perto de casa, Emanuel percebeu uma movimentação estranha entre as pessoas na sua porta. Ele saltou da bicicleta e correu para ver o que era. Quando enfim conseguiu passar pelos curiosos e entrar em casa, viu sua esposa segurando a pequena Cecília, aos prantos, dizendo que ela não respirava mais. Ele então a tomou em seus braços e correu para fora. A velha bicicleta logo se transformou em uma ambulância veloz, com destino ao hospital mais próximo.
Por sorte, a Vila do Iraque ficava bem próxima a um hospital público, chamado popularmente de Pan de Areias. Era o pesadelo de qualquer morador das vilas de verdade e dos conjuntos residenciais da redondeza, mas para Emanuel era a salvação.
Ele entrou correndo, segurando a pequena, fria e pálida nos braços. Logo no primeiro corredor, foi barrado por um segurança, que lhe disse com desdém que ele deveria preencher uma ficha e esperar a sua vez. O pobre homem tentou explicar de todas as maneiras que a menina não tinha muito tempo, mas foi tudo em vão. O segurança continuava irredutível. Emanuel entrou em desespero, correndo de um lado para o outro, aos berros, chamando a atenção de todos. Foi quando saiu de uma das salas uma jovem médica, que se comoveu com o sofrimento daquele pai e pediu que o segurança o deixasse passar. O homem desesperado aliviou-se, entregou a menina aos cuidados da jovem médica e esperou lá fora.
Depois de uma hora e meia de espera, Emanuel foi chamado para entrar na sala, onde sua filha descansava em um leito, com uma mascara de oxigênio que cobria quase todo o seu rostinho. A jovem médica explicou que Cecília teve uma crise muito forte de asma, resultando em uma parada cardio – respiratória, mas passava bem, porém não poderia voltar para casa porque outra crise poderia ser fatal. Emanuel perguntou quando a garotinha poderia voltar. A médica disse que sem um aparelho chamado nebolizador, a menina não poderia voltar pra casa em segurança. Emanuel tinha que conseguir aquele aparelho de qualquer maneira. A jovem medica falou com naturalidade que com quinhentos reais ele poderia comprar um bom nebolizador. Quinhentos reais era uma fortuna! Onde Emanuel conseguiria quinhentos reais?!
Enquanto Cecília dormia, Emanuel segurava a sua mão e rezava, pedindo aos céus uma solução para aquele pesadelo. Ele não dormiu. Pensando, pensando, pensando... Às sete e meia resolveu sair. A esposa devotada tomou o seu lugar ao lado do leito, onde jazia a menina. Emanuel não estava certo de muita coisa, mas sabia que não conseguiria quinhentos reais vendendo feijão. Pedalou sem rumo pela cidade e quando se deu conta, estava ele no cruzamento da Rosa e Silva.
Emanuel observou, com lágrimas nos olhos, as pessoas em seus carros de luxo, cheias de sorrisos e celulares. De repente a tristeza transformou-se e ira. Uma senhora que esperava o sinal fechar para atravessar, olhou para ele com pavor e escondeu a bolsa. Emanuel deixou-se levar pelo ódio, vendo naquela bolsa uma saída para o seu problema e um alívio para a sua revolta. Sem pensar, atirou-se sobre a senhora e tomou-lhe a bolsa. Ela gritou de pânico e ele congelou quando se viu cercado de carros por todos os lados. Correu para dentro de um supermercado cheio de gente, descalço, com uma bolsa de mulher na mão e logo foi interceptado por dois seguranças, que o detiveram com energia e chamaram a polícia.
Emanuel foi posto, como um ladrão, dentro da viatura e logo estava na delegacia, cercado de repórteres famintos por mais uma notícia para o telejornal do meio-dia. Uma das hienas, com um microfone na mão, perguntou por que Emanuel havia roubado a bolsa e ele timidamente contou para as câmeras tudo o que havia passado até ali. O relato de Emanuel, não comoveu ninguém. Ele foi encaminhado ao presídio, acusado formalmente de roubo.
Ao meio-dia, entre tantos outros crimes estava o caso do vendedor de feijão, foi como eles chamaram a historia de Emanuel. Ao fim da matéria, o apresentador do programa, um baixinho, com cara de poucos amigos, deu um conselho muito construtivo para Emanuel, que a essa altura já estava trancafiado em uma das celas imundas e superlotadas do presídio Aníbal Bruno. Dizia mais ou menos assim:

“Meu filho, por que você não pediu dinheiro a alguém? Por que não continuou vendendo seu feijãozinho? Roubar não vai resolver o seu problema, meu filho! Eu espero sinceramente que você, quando sair do presídio, não invente de se vingar. Não se revolte não, meu filho, que isso só vai ser pior pra você...”.

Certamente Emanuel não assistiu ao noticiário e não ouviu as sábias palavras do apresentador, mas ele sabe muito bem que não existe só uma vítima no caso do vendedor de feijão. Ele sabe muito bem onde estão os verdadeiros ladrões, que não pensam duas vezes antes de roubar a esperança de pessoas que possuem o dom de sorrir, mesmo quando não há mais o que esperar. Um dia eles transformarão aquela vila em um bairro, porque um título é muito fácil de ser mudado, difícil mesmo é mudar uma realidade.
Emanuel era pobre, mas não era burro.

10 Comments:

Anonymous Anonymous said...

parabens pelo blog!
muito boas as historias!

12:47 PM  
Anonymous luzia said...

se um dia quiser pensar, venho aqui!
:)

12:47 PM  
Anonymous lazaro said...

triste ne?
muito bem escrita. legal cara

12:48 PM  
Anonymous nando said...

valeu pela dica!
ate +

avisa quando tiver um novo ou filme.

12:49 PM  
Blogger Pâmela said...

Sinceramnt... estou impressionada! Principalmnt c o misto d delicadeza e firmeza para critikr questões tão pesadas q aparentmnt a sociedad ñ quer ver. Adimiro a iniciativa... Gostei tbm da construção... conseguiu m prender do início ao fim.

8:05 PM  
Anonymous vivian said...

quem te le pensa q escrever e tao natural quanto respirar.

tocante naturalidade.
lindo!

7:28 PM  
Blogger Andressa said...

eu sei que é esquisito ficar elogiando o tempo todo...mas é que vc me tira as palavras.

gosto do tratamento que vc dá a certos temas recorrentes na literatura. vc agente ler com ansiedade crescente do começo ao fim. aí está sua originalidade.

1:09 AM  
Anonymous alex said...

e eu nem saco isso.
estranho n?

2:10 PM  
Anonymous lazaro said...

muito comovente!
achei perfeito.

11:09 AM  
Anonymous Anonymous said...

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